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A vinha, o vinho e o bonsai.

 

A vinha, o vinho e o bonsai.

 

Quais as semelhanças entre a vinha, o vinho e o bonsai?

 

Destacamos dois sentidos: a sensibilidade do paladar para o vinho e o olhar atento dedicado ao bonsai. Embora tenhamos que acrescentar o olfato na apreciação do vinho, porque é o primeiro sentido com o vinho

 

O vinho, cujo presença nas civilizações mediterrânica é atestada há oito milénios, é sinónimo de festa e alegria. Fruto da videira, é obtido através da fermentação das uvas, graças ao processo de vinificação.

 

Rabelais escreveu: O vinho é o que há de mais civilizado no mundo!

 

Fonte: France Archives.

 

 

A vinha, o vinho e o bonsai, quais as semelhanças?

 

 

A seguir vamos explicar as semelhanças entre ambos.

 

Existem dois tipos de vinha, uma que produz uvas de mesa e outra que produz uvas para fazer o vinho, é esta última que nos interessa para este artigo.

 

Parece um pouco estranho falarmos do vinho e do bonsai, mas são ambos o resultado de uma jornada de trabalho misturado com arte. Sem um processo rigoroso, um trabalho árdua e contínuo, alguma sensibilidade e uma boa parte de saber fazer, ou seja, o Know How, tudo isso de forma adequada, resulta numa obra de arte final deslumbrante quando bem-sucedida.

 

Apreciamos o vinho primeiro pelo aroma e só depois pelo sabor, enquanto que o bonsai se contempla com o olhar. Apenas devemos estar atentos ao detalhe que faz a diferença. O paladar no caso do vinho e a estética geral no caso do bonsai.

 

Mas antes de chegarmos ao fim da prova do vinho e da apreciação dum bonsai, temos uma longa história e uma multitude de tarefas similares.

 

 

São ambos produtos da terra, tanto a vinha como o bonsai necessitam de solo para se desenvolver, podem nascer de sementes ou de enxerto, mas sem a qualidade do solo certo, nunca teremos ótimos resultados.

 

O primeiro passo, o enxerto ou a semente.

 

- No caso específico da vinha, recorre-se ao enxerto por este se ter tornado indispensável nos anos a seguir a 1870, que destruí milhares de hectares de vinha nos principais vinhedos europeus.

 

E como se não bastasse, por volta de 1878, o míldio, sob a forma de uma florescência branca, ataca por sua vez a vinha. É combatido graças à famosa calda bordalesa, à base de sulfato de cobre. Os esforços são tais que, na viragem do século, o nível de produção volta a ser comparável ao que a França conhecia antes da filoxera.

 

Mas desde de então a plantação de noivas vinhas obriga o produtor a comprar plantas certificadas, o porta-enxerto e o enxerto separadamente ou então o novo pé de vinha já enxertado e com o respetivo certificado de autenticidade.

 

 

Desde a invasão da filoxera, seguida da generalização da enxertia numa variedade resistente, as videiras são o resultado da união entre um porta-enxerto e um enxerto. estas videiras enxertadas e soldadas são produzidas pelos viveiristas, que asseguram a sua multiplicação e comercialização de acordo com normas muito rigorosas, estas plantas oferecem a máxima garantia quanto a sua identidade genética e ao seu estado sanitário.

 

Fonte: Occitanie IFV

 

 

Na viticultura, o material vegetal pode contribuir para dar resposta aos principais desafios do século XXI. O porta-enxerto pode oferecer soluções sustentáveis face às alterações climáticas, à necessidade de reduzir o uso de produtos fitossanitários, à diminuição da produtividade e ao declínio dos vinhedos.

 

Após a análise do solo, a escolha do porta-enxerto é uma etapa essencial. este deve adaptar-se ao terreno e às condições de cultivo, mas também influencia o  comportamento do enxerto.

 

No bonsai não temos esse problema, não sendo um produto de consumo, não precisamos de plantas certificadas. Produzimos os nossos bonsais a partir de sementes, estacas, alporquias e também enxertos quando se trata de obter variedades específicas como é o caso do acer palmatum deshojo entre outros.

 

Muitos bonsais nascem a partir de sementeira, geralmente feita na primavera. A sementeira é a técnica mais interessante no bonsai por ter várias vantagens em relação aos outros métodos.

 

- Garantia da idade do nosso bonsai porque sabemos sem dúvida alguma, quando nasceu o primeiro rebento;

 

- Este é o procedimento mais adequado para obtermos um nebari mais bonito, as raízes irão engrossar de modo natural, sem nunca se ver diferenças no diâmetro e não haverá cortes, a raiz afunila naturalmente, o futuro nebari irá ampliar de forma regular bastando para isso dirigir as raízes em forma de estrela a cada transplante;

 

- É um legado original que deixámos às futuras gerações, o processo pode perdurar várias gerações, visto o bonsai ser uma planta viva, sempre em crescimento, a sua respetiva formação nunca será considerada como terminada e definitiva. A criação de um bonsai é um processo contínuo, todos os anos devemos proceder a determinadas tarefas afim de alcançar o modelo e estilo pretendido. Não se pode pensar criar um bonsai com rapidez, só o tempo e a paciência darão resultados ao longo dos anos.

 

NOTA:

- O legado original também existe na vinha, que pode perdurar  muitos anos e atravessar várias gerações.

 

- A sementeira é uma técnica que não envolve uma grande despesa, basta comprarmos as sementes e seguir as nossas indicações para conseguir o primeiro bonsai. lembre-se que nem todas as espécies podem ser multiplicadas por sementeira.

 

O segundo passo é a plantação:

 

Ambos partilham igualmente o momento da plantação, porque é assim que começa a jornada de cada um deles.

 

- A vinha é plantada diretamente na terra, por norma nas regiões próprias com um território determinado para ter direito a uma apelação ou que dá a máxima importância ao vinho e acentua o preço de venda. É um processo relativamente simples, bastando escolher uma terra com as condições exigidas para conseguir uma colheita abundante e de qualidade. Todos os anos cada pé de vinha deve ser fertilizado e regado. Hoje em dia existem sistemas de rega gota a gota que permite adicionar o adubo à água da rega, o que aumenta consideravelmente a produção. É um processo mais simples porque o pé de vinha fica sempre no mesmo sítio durante todo o tempo de produção, até ser removido definitivamente em fim de vida.

 

- No bonsai o processo é diferente, sendo uma árvore que vive num vaso com medidas muito restritas, temos que optar por um solo adequado a cada transplante. Nos primeiros anos pode ser plantado em bandejas de plástico preto, totalmente opaco para proteção máxima das raízes. Os alvéolos possuem estrias que direcionam as raízes no sentido correto, aumentando a taxa de sucesso e diminuindo o tempo de enraizamento.

 

A seguir, passado dois a três anos a viverem em bandejas, passam para vasos de cultivo onde continuamos a dar a forma desejada, geralmente um vaso terracota Tokoname com as suas particularidades únicas que favorecem o crescimento do bonsai. Ao contrário dos vasos moldados produzidos em massa, a maioria dos vasos tokoname ainda hoje são feitos à mão por artesãos qualificados, utilizando barro local e técnicas tradicionais transmitidas de geração em geração. muitos apresentam desenhos e esmaltes únicos que mostram o estilo individual de cada oleiro. Os vasos são feitos com um barro especial encontrado na área de tokoname que é rico em ferro. este facto confere aos vasos a sua cor vermelha característica após a cozedura. O barro é moldado à mão numa roda de oleiro. Por fim, os vasos são submetidos a um longo processo de cozedura num forno a lenha.

 

Tokoname é o lar de numerosos mestres oleiros que foram designados como tesouros nacionais vivos pelo governo japonês. Um desses artesãos foi Yamada Jozan III de 1924 a 2005, aclamado pelas suas chavenas de estilo Shudei feitas a partir do barro vermelho local.

 

Por fim transplantámo-lo para um vaso de bonsai adequado à espécie e sobretudo ao estilo que idealizamos. cada tipo de bonsai tem o seu vaso correspondente.

 

- Um vaso retangular será particularmente adaptado às árvores fortes e corpulentas com ramos bem definidos e vigorosos patamares vegetativos.

 

- Um vaso oval faz mais lembrar um lado feminino, com delicadeza e consequentemente será reservado a árvores  com uma certa elegância como por exemplo os bonsais de folha caduca.

 

- Um vaso redondo pode adaptar-se a qualquer tipo de bonsai, mas fica preferencialmente melhor no bonsai pinus.

 

Transplantamos sucessivamente a cada três ou quatro anos, mudando para um vaso com mais  cinco centímetros de comprimento, ao contrário da vinha que cresce diretamente na terra, o bonsai tem que viver num espaço limitado e sendo assim temos que ajudá-lo mudando o substrato e o vaso. Existe vários substratos próprios para o cultivo do bonsai, um pouco como o território para a vinha para as apelações. Utilizamos a akadama hard quality para a grande maioria dos bonsais, a kiryuzuna para as coníferas como os pinus e os juniperus, a kanuma para  as árvores acidófilas como azáleas, rododendros e aceres, a keto para as florestas.

 

 

Ler artigo original sobre como escolher o vaso para o bonsai.

 

NOTA:

 

Existe uma diferença fundamental no que toca às raízes da vinha e do bonsai.

 

- Na vinha, quanto mais velhas, mais compridas ficam para puderem ir mais longe à procura de alimento debaixo da terra e nas pedras, o que faz toda a diferença no paladar quando degustamos o vinho. Por norma, não é apenas a idade do vinho que conta, mas também a idade da vinha que determina a qualidade do produto final.

 

- No bonsai, o procedimento é diferente, impedimos que as raízes desçam no solo, ficando limitadas no vaso, que é o mais raso possível e relativamente pequeno. O objetivo é o favorecimento do nebari, ou seja, procuramos com esta técnica o alargamento da raiz principal e da base do tronco para dar um aspeto muito envelhecido à nossa árvore.

Nebari é a expressão japonesa que significa o conjunto da base do tronco e das raízes rasantes. na natureza um dos aspetos mais bonitos de uma árvore são as raízes que transmitem a força desenvolvida para segurar a árvore ao solo. 

 

A essência da cultura do bonsai fundamenta-se no alcance da perfeição do nebari, ou seja, o sistema radicular apurado que vai permitir proporcionar um melhor desenvolvimento da estrutura aérea. 

O nebari consegue-se com tempo e paciência, o melhor resultado obtém-se com um bonsai obtido a partir de sementeira e cultivando o bonsai sempre em vaso o mais raso possível, evitando assim que as raízes procurem descer no solo, provocando o seu alargamento.

 

Portanto, quanto mais cedo cortamos a raiz axial, mais fácil será obter um excelente nebari.

 

Ler artigo original sobre o nebari do bonsai.

 

 

Terceiro passo, a poda:

 

Todos os anos temos que intervir.

 

Na vinha:

 

- As operações realizadas na vinha são múltiplas: escolher as castas, plantar, desenterrar a base  do cepo e de seguida amontoar terra à volta, podar, fertilizar, proteger contra doenças...

 

A poda da videira representa uma etapa crucial na produção, determinando diretamente a qualidade e a quantidade da futura colheita. esta operação fundamental permite  controlar o crescimento da planta, mas também a sua longevidade, respeitando os fluxos naturais da seiva.Este respeito garante um desenvolvimento harmonioso da videira.

O objetivo principal é estabelecer um equilíbrio entre o vigor vegetativo e a produção de uvas.

O outro objetivo é poder combater as geadas.

Contrariamente ao bonsai, não podemos resguardar a vinha num local fora de gelo. 

 

A escolha do período de poda revela-se determinante para a saúde da vinha. É essencial respeitar o período de repouso vegetativo, este período depende da zona geográfica.  De um modo geral, este repouso começa com o amadurecimento da videira, ou seja, em agosto-setembro e prolonga-se durante o inverno até março. A poda é o primeiro trabalho na vinha no ano de produção.É um processo demorado, meticuloso e que exige grande precisão.

Existem muitos tipos de poda da vinha, mas a poda de formação constitui a base da futura estrutura da videira, esta etapa inicial é realizada durante os primeiros anos de plantação da vinha. Determina a forma que a videira irá assumir e influenciará a sua capacidade de produção a longo prazo. Esta fase crucial requer uma atenção especial para estabelecer uma estrutura sólida que facilite as futuras operações de poda e garanta uma boa distribuição da seiva por toda a videira. Esta poda específica é idêntica, independentemente da futura poda em regime de produção, até à segunda folha com dois anos.

Durante o terceiro ano de formação, a videira assumirá a sua forma final.

 

Uma poda inadequada pode ter graves repercussões na saúde e na produtividade das videiras. Os erros de poda favorecem o aparecimento de doenças da madeira e  podem comprometer de forma duradoura o potencial de produção da vinha. O declínio das videiras resultante de uma poda incorreta traduz-se muna diminuição do vigor, numa redução dos rendimentos e pode mesmo conduzir à morte prematura das videiras.

 

No bonsai:

 

- No bonsai temos que realizar podas de manutenção e de estruturação, aramar para dar a forma desejada ao nosso bonsai, o equivalente à poda da vinha para ficar compacta e produzir mais. Se a vinha nunca for podada, pode atingir dezenas de metros e quanto mais ramificações tiver, menor será a produção de uvas. O mesmo se aplica no bonsai, uma árvore que não é podada ficará grande demais e sem nenhum estilo definido, o objetivo do bonsai é ter uma árvore compacta e bem definida, com um estilo próprio.

 

A poda de estruturação do bonsai pode ser feita no fim do outono e no inverno, com seiva parada para não enfraquecer o bonsai. A poda de estruturação consiste em definir as bases  gerais do tronco e dos ramos principais, elementos decisivos para transmitir a perceção que o autor quer dar ao seu bonsai como a força, a elegância, a ligeireza e o movimento. O objetivo principal da poda de estruturação é a estética do bonsai, provocando uma nova rebentação mais compacta e sobretudo mais perto dos ramos primários de forma a equilibrar a entrada da luz e dar mais vitalidade aos ramos mais baixos e de segundo nível, estamos assim a melhor distribuir a energia no cinjunto dos ramos a partir do início da árvore e não no fim, comoacontece na natureza por razões de sobrevivência.

 

Ler artigo original sobre a poda de estruturação do bonsai.

 

 

A poda de manutenção, mais leve que a poda de estruturação e que equivale a cortar os ramos novos, regra geral quando o bonsai tiver seis folhas novas, deixamos apenas as duas primeiras.

A principal característica da poda de manutenção é de manter o aspeto visual do bonsai, conforme foi definido pela poda de estruturação.

 

Ler artigo original sobre a poda de manutenção.

 

A vinha produz o sumo de uvas, mas para conseguir um bom vinho temos que ter a intervenção de um enólogo, que sabe, subtilmente, fazer algumas misturas de uvas e vinhos até conseguir obter um vinho de excelente qualidade. O vinho não se obtém logo a seguir a vindima, pode demorar meses e até anos para ser degustado na perfeição. hoje em dia o vinho é conservado em cisternas de inox para os vinhos de qualidade corrente, mas para os grandes vinhos, as pipas de carvalho francês continuam a ser a melhor opção. O vinho de grande qualidade é o que fica mais tempo nos barris de carvalho e conservado em caves onde recebe toda  atenção merecida até sua degustação.

 

No bonsai, é o tempo que passamos a prepará-lo para ser exposto, seja em nossa casa, ou numa exposição. Procuramos pôr em valor primeiro o nebari, por ser a parte que chama mais a atenção do olhar, de seguida tentamos definir cada patamares com detalhes simétricos, deixando sempre o ápice bem evidenciado, por fim colocamos uma planta de acompanhamento ou Shitakusa em japonês que atua como auxiliar, tendo a função de complementar um conjunto e realçar o tema principal, ou seja, o bonsai.

 

Ler artigo original sobre o kusamono e o shitakusa.

 

 

A vinha, o vinho e o bonsai, uma arte.

 

 

Resta agora desfrutar do vinho, cada degustação deve ser apreciada com calma e serenidade, honrando o produto e toda a jornada percorrida até chegar ao líquido sumptuoso que repousa no nosso copo.

 

No bonsai, o prazer vem da própria observação, um exercício que é sinónimo de calma e tranquilidade. Viajamos ao ver uma réplica de uma árvore adulta, é o sentimento de reconhecimento do poder da natureza que felizmente podemos ter no nosso lar.

 

 

Cultive a Paz. Crie a Arte.

 

 

 


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